31.3.11

Hoje é tempo .

É justamente quando mais se faz força para esquecer, que menos se esquece. E então as coisas parecem tão erradas, tão tortas, tão falsas que talvez a solução seja justamente deixar. Sim, deixar acontecer. Deixar a dor chegar, tomar conta, e esperar que uma hora ela se canse e vá procurar outro corpo, outra história, outra tristeza.
Não dá para ser feliz 24 horas por dia, 7 dias na semana, 30 dias no mês. Hoje é tempo de sentir e sofrer. É tempo de viver o luto, vestir o preto e chorar por uma madrugada inteira. É tempo de deixar as saídas para semana que vem, os sorrisos para amanhã e se sentir humano. Porque ser humano é isso aí. É aceitar ser feliz. E em toda felicidade, a tristeza também faz parte.
Hoje é tempo de não enlouquecer. É tempo de botar a cabeça no lugar, ligar aquele motorzinho do "deixa fluir" e esperar que o tempo resolva o que ficou pra trás. Mas o tempo é um senhor filho da puta. O tempo não escolhe, não seleciona, não separa o que deve ir do que deve ficar. Se ele leva embora, ele leva embora tudo. E tempo, me deixa ficar com essa lembrança, só essa. Vai, tempo, deixa! A pinta do lado esquerdo do rosto, o cheiro do perfume doce ou a forma como o cabelo cai na testa. Mas ele não deixa. Ele é a salvação de toda a crueldade do esquecimento. E quando você acordar num belo dia com a certeza de que tudo passou, acordará também com a certeza de que até o que não podia passar, passou também.
E então um dia você se pega perguntando "qual era mesmo a cor daqueles olhos?", e não vai mais importar se eram verdes, azuis ou castanhos, porque aqueles olhos já não te olham mais.
O esquecimento é o preço que o tempo cobra por deixar fluir, por levar embora tristezas e arrependimentos. Um preço caro, mas indolor.
Um preço necessário para que tudo fique bem de novo. Para que a vida, a cabeça e o coração abram espaço para novas alegrias, novas memórias e novos esquecimentos.
Hoje é tempo de se fechar para mais tarde ser tempo de se abrir. Hoje é tempo de tempo.

Alguem !


Alguém é mais sensível do que sentimos, vê mais do que vemos, ouve mais do que ouvimos, fala melhor do que falamos, entende mais do que entendemos, esquece menos o que nós esquecemos, julga menos o que nós tanto julgamos, se coloca em lugares que nunca nos colocamos e repete menos os erros que nós tanto cometemos repetidamente. Alguém quer digerir as borboletas que ninguém mais engoliu.
Alguém está perdido por aí, incapaz de ser encontrado por todo aquele que o procura. Alguém aparece quando é convocado, mas some porque é expulso. Esse alguém precisa ser invisível para poder ser encontrado. Alguém é mais feio do que imaginávamos e mais bonito do que suportaríamos. Não é óbvio?
Alguém não sabe contar, mas sabe sentir. Do que adiantou se hoje o mundo só resume a números? Alguém não quer ser ninguém. Alguém se apaixonou à primeira frase escrita. Alguém precisa recuperar o que nunca teve. Alguém está vivo, e respira o mesmo ar que te sufoca.
Alguém que você nem sonha… Sonha com você.